sábado, 27 de março de 2010

Um Minuto de Silêncio



O relógio marca 14h04min. Neste momento muitos executivos reúnem-se em seminários sobre “Globalização e Direitos Humanos". Pessoas fazem seus almoços rápidos no Mac Donald’s onde estragam-se quilos de comida ao lado de favelas onde moram pessoas miseráveis.  Um homem anda pela calçada, cabisbaixo ao retornar ao trabalho após suas férias, apenas por necessidade e não por satisfação. Uma mulher trabalha no jardim de sua casa, feliz com o seu novo laptop da Apple. Pessoas embarcam animadas num navio chique e bastante iluminado para um Cruzeiro de uma semana pelo litoral do país. Um menino de aproximadamente dois anos de idade, todo sujo, chora no meio de um entulho, com fome, enquanto seus pais catam comida lixo para a primeira refeição do dia. Uma mulher serve-se de vinho e sorvete no restaurante, comemorando sua promoção após a apresentação de um novo projeto na empresa multinacional em que trabalha. Um homem baixinho e de óculos pega seu suco de laranjas em uma reunião de negócios tarde da noite e pensa qual o sentido de estar ali, podendo estar em casa com a esposa e os filhos. Em algum lugar da África, um grupo de vinte meninos sentam-se em círculo e começam a conversar para esquecer dos problemas sociais que o cercam. No interior do país duas crianças pequenas deitam em suas redes, num quartinho de uma casa de palha, porque não possuem televisão e nem brinquedos, enquanto sua mãe saiu batendo de porta em porta para vender Avon. Um homem sorri sozinho dirigindo, no meio de um engarrafamento... acabou de comprar o novo Volvo da Toyota. Façamos um minuto de silêncio por todas as pessoas que estão passando minutos de dor e sacrifício. Um minuto de silêncio por nossos passos de liberdade perdidos, pelas vozes que não ouvimos e pelos ventos que não sentimos. Um minuto de silêncio pelos guerrilheiros, missionários... pessoas que dão valor à vida e que fazem das suas lutas seu próprio orgulho e a realização de sonhos. Um minuto de silêncio pelas lembranças, memórias que o tempo nos enterrou. Um minuto de silêncio por todas as pessoas que amamos e que partiram de nossas vidas, pessoas que Deus levou para um mundo ainda desconhecido para nós. Um minuto de silêncio pelo destino que ainda teremos. Um minuto de silêncio pela responsabilidade que cada um tem sobre a criminalidade. Um minuto de silêncio pela Mãe Natureza, que morre um pouco a cada dia. Um minuto de silêncio para o fim do desemprego, violência, criminalidade, poluição, desigualdade social, fome, prostituição, corrupção, trabalho infantil e a melhoria da educação, habitação e saúde. Um minuto de silêncio pelo mundo que vai, vai e vai indo sem sabermos em que ponto vai chegar.
Um minuto de silêncio. Eu só te peço um minuto de silêncio para refletir sobre o seu papel no mundo.
Um minuto de silêncio é tão pouco para tanto. O luto seria o mais apropriado.

sábado, 20 de março de 2010

Fragmentos I



- Oi... – disse ela timidamente assim que o viu.
- Pensei ter ouvido você me chamar... – comentou ele, por fim sentando-se ao lado dela. Suspirou o mais profundo ar tirado da alma e tremendo segurou suas mãos nas de Vivian.
- Eu sinto muito por te chamar sem motivo aparente desta vez. Descobri que fico sufocada e sem fala toda vez que você sai por aquela porta depois de me incendiar com estas estrelas vivas dentro dos teus olhos. Erick, meu coração grita pelo teu nome. Grita na mais pura agonia quando não estais perto de mim, mas quando te aproximas, eu esqueço por um tempo que não posso amar-te. Esqueço que és um anjo...
Ela baixou à vista ao chão e deixou que suas mãos a aquecesse naquela noite fria. Tal como as nuvens pesadas de chuva no céu, seus olhos eram só lágrimas e seu coração pulava. Era o único som que ouvia-se dentro do quarto. Lá fora as árvores balançavam descompassadamente com o vento que ao longe trazia um temporal.
Ele nada fez a não ser abraçá-la forte, horas adentro, até que ela se acalmasse. Por fim, quando a chuva chegou e o coração de Vivian não mais gritava, ele quebrou o silêncio.
- Não chores não, minha vida. Não quero que peça desculpas ou lamentes porque me queres aqui. Sempre venho de bom grado, sabes disso e sabes também que toda a sua angústia involuntariamente se faz minha também. Não vês que quando teus olhos choram tuas mágoas os meus também te acompanham? Sempre que te vejo triste aqui venho e quando chego aqui não gosto do que vejo...
- Sei bem que não posso te amar e por desejar tamanho sentimento me dói tanto... Sinto raiva de mim mesma. Destruo as belezas do teu mundo e causo transtornos em teu caminho e não estou sendo sensata em querer ferir ainda mais você ao sentir o quão triste estou!
- Tú és tudo o que de mais belo já conheci neste mundo e por assim ser, esta noite vim despedir-me de ti.
Vivian saltou da velha cadeira forrada com tecido de veludo azul a qual estava sentada. Tentou de alguma forma absorver as últimas palavras e o silêncio que agora tocava como melodia de uma provável despedida.
- É um adeus? – perguntou enfim sabendo que era o melhor a ser feito ao mesmo tempo em que o coração ansiava ouvir uma negação como resposta.
Erick caminhou três passos silenciosos, observou a janela do quarto onde já escorriam as primeiras lágrimas de uma chuva que adentraria a noite, fechou os olhos e com um suspiro respondeu:
- Minha vida, chegará o dia em que iremos nos encontrar e será para sempre. Para mim que tenho toda uma eternidade pela frente, demorará muito tempo, mas para ti logo chegará. – ele soltou um sorriso tímido depois das palavras numa voz de música.
Vivian conhecia bem aquele sorriso tímido. Era uma resposta impressa do que queria dizer que ele devia partir e logo em seguida confirmou seus pensamentos, pois num piscar de olhos Erick já não estava mais ali. Neste momento ela olhou pela janela e a chuva, como por um milagre, havia parado. A lua aparecia por entre as nuvens e as estrelas ainda estavam ocultas.
A noite estaria realmente perfeita, mas ele não estava mais ali.