Eu tinha acabado de fazer aniversário, quando pela primeira vez o vi, mas já havia ouvido falar muito dele. Estava viajando para aproveitar as férias de fim de ano, quando percebi sua presença no ônibus, próximo a mim. Ele era do tipo que fazia sucesso entre as garotas e eu, moça tímida, que ficava feliz e admirada apenas em vê-lo sorrindo ou cercado da sua nuvem costumeira de fumaça. Ora, não podia ser tão perfeito assim! Mas para minha surpresa, naquele dia, eu fui a garota que chamou a atenção dele e só percebi isso porque ele constantemente me olhava, deixando-me sem graça com aquela troca de olhar insistente.
Mas não foi nesse dia que trocamos as nossas primeiras palavras, foi bem depois. Apenas chegamos à rodoviária de Ouro Preto e cada um seguiu o seu caminho.
Foi numa noite de céu estrelado, eu caminhava pelas ruas da cidade, encantada com cada detalhe daquela cidade histórica. Respirava profundamente cada pedacinho de ar que adentrava em meus pulmões. Cheirinho de história, amores proibidos, velhas igrejas e o sofrimento da Inconfidência Mineira. Decididamente estava certa de que queria passar o resto da minha vida ali, aquela cidade parecia parte de mim.
E foi assim, cominhando, contemplando, pensando que ele surgiu na minha frente. Aquele sorriso torto que me estonteava, dentes perfeitos e aquele olhar! Ah aquele olhar que mais parecia uma chama. Queimava-me por dentro.
Ele segurou minha mão, feliz como se tivesse sonhado por dias com aquele momento e convidou-me a sentar num banquinho de madeira próximo à Igreja Nossa Senhora do Carmo. Que vista linda tive da maior parte da cidade. Lembro-me que as pessoas caminhavam pelas ruas, deslumbradas como eu, com suas sacolas cheias de lembrancinhas da cidade histórica. Carregavam, nem que fosse assim, um pedaço da velha Ouro Preto.
Como se me conhecesse há muito tempo, ele contou-me que havia terminado um namoro e não transpareceu tristeza quando eu disse-lhe que estava namorando um rapaz. Ele confessou-me, naquele momento que, estava diante da pessoa que queria conviver, fazer planos, freqüentar minha casa e que não conseguiria mais ficar distante de mim. Eu o admirava em tudo e já estava completamente apaixonada, sentia medo de perdê-lo, mas eu ainda estava namorando, não me parecia correto. E no fim das férias, quando retornei à minha cidade natal, prometi a ele que voltaria em um ano e a gente viveria a felicidade que nos estava destinada.
Passaram-se um, dois, três anos. Não havia desistido daquele amor, mas também não consegui desfazer-me rapidamente da vida cômoda em que vivia. Ainda não consegui. Foi com ele que eu descobri o que é o verdadeiro amor, foi para ele que eu fiz os meus primeiros versos...
Semana passada ele me escreveu uma carta. Nela dizia que ele ainda sonha com o meu cheiro, com o perfume dos meus cabelos lavados, com a minha voz doce, minhas palavras gentis. Sonha com as minhas mãos macias, minhas unhas bem cuidadas e pele lisinha... Ele sonha ainda com o meu sorriso, com o meu temperamento, minhas constantes mudanças de humor, do meu modo de ver a vida. Ele disse mais, escreveu algo que profundamente nunca esperei ouvir de ninguém: que o nosso amor será além da eternidade.
Assim como eu, ele sabe que somos perfeitos um para o outro, que somos a idealização de um sonho que antes era distante. Sou covarde demais para viver tudo isso, mesmo acreditando. Decidi apenas deixar o destino agir. Rezar para que um dia ele me encontre na rua, ou em um shopping, ou em uma festa, ou em uma livraria, olhe bem fundo dos meus olhos e me salve desta vida que não escolhi, mas por ser fraca demais, não consigo abandonar. Sou o sonho dele, ele é o meu sonho. Eu sou o sonho de alguém, e eu só preciso esperar ele me encontrar para então realmente existir, para com um beijo ele me trazer para a realidade.
Pare de sonhar. Já está na hora de acordar! Acordar para mim...