Estreando: Coração Gelado.
Já quase meia-noite quando acordei. Abri os olhos e lá estava ele, em um tom roxo claro, submerso dentro de um pequeno frasco de vidro, cheinho de pedras de gelo. Lá estava aquele o qual eu havia desistido: meu coração. A noite lá fora era só silêncio e a chuva escorria levemente pelo telhado. Levantei ansiando uma xícara de café. Sim! Tenho feito da noite o meu dia e pela manhã meu corpo voraz pede uma taça de vinho tinto suave sem gelo, antes de dormir, porque só assim conseguiria sobreviver ao topor que você fazia em minhas noites de insônias. Um gole de café quente desceu queimando minha garganta. Belo contraste me fez sentir, sou a garota gelada, aquela que não possui mais um coração. Decidi por arrancá-lo logo depois que você foi embora. Pra quê ia querer algo morto dentro de mim? Há muito tempo ele não batia mais, nem bombeava o sangue que não corre mais entre minhas veias.
Na escrivaninha busco companhia dos livros, nas palavras soltas, nas letras de Chico que viraram notas musicais... Estou quase explodindo com tantos pensamentos presos, minhas vontades guardadas a sete chaves, o doce dentro de mim hoje é enjoativo demais e a acidez já não está tão dosada... Estou pensando em tudo o que você já sabe. É insuportável entender suas metáforas quando o meu termômetro de emoções está desligado. Olhando para a xícara de café afogo-me em pensamentos. Sempre achei que você sabia exatamente aquilo que eu estava pensando e de tanto que eu penso não sentes meu peso em ti? Como eu queria ter asas para que este fardo se tornasse mais leve. Ah, falando em anjo, não posso esquecer-me de dizer o quão lindo você fica quando sorri.
Só queria chegar e te abraçar sem um por que, sentir aquele cheirinho do perfume que tu usas o qual eu adoro. Preciso de um motivo novamente para sentir-me viva entende? E foi hoje que, mesmo sem coração, ao te ver, algo aqui dentro deu sinal e eu respirei aliviada. Esquece o café! Preciso de uma taça de vinho. Não! Preciso de uma garrafa inteira, só assim as palavras fluem melhor. Gosto de excessos porque cansei de viver de metades. Minha alma é cheia de segredos, mas espalha todos quando encontra a tua, quando estamos dormindo, naqueles dias em que você sabe, sou teu último pensamento antes de dormir. Só assim, você ainda vem até mim, só assim ainda posso te sentir, só assim...
Eu fico aqui escrevendo, roendo as unhas, até que você chega da faculdade e eu me lembro do teu cavanhaque que tanto me enlouquece. Olha só! Derramei vinho no celular. Calma, não estou enrolando é que estou tentando falar, que eu preciso muito que você saiba... Já são cinco horas da manhã? Já está quase amanhecendo, logo agora que em seus sonhos você segurava a minha mão. Ô menino, como você me faz bem! E o que eu queria mais te contar antes de ir é sobre os céus e as estrelas que vejo em teu olhar, luzes que fervilha minha alma. Hoje me vejo como o cinema de antigamente. Minha voz calou-se... Gestos e expressões mudas me acompanham. Preciso ir, está quase na hora de você acordar, mas antes de partir do teu quarto, te olho antes que acorde e resolvo arriscar algumas palavras, observando teus olhinhos de conchas, tua boca semi-aberta, digo num sopro que te faz tremer inteiro:
- Eu amo você, menino!
Sim, sei o que estais a pensar. Mas é verdade! Sempre que pensas em mim antes de dormir passo noites inteiras ao teu lado, enquanto você brinca com as minhas mãos sonhando. Nessas horas eu estou tão feliz que não quero mais voltar, mas seria muito arriscado, eu poderia ficar presa pra sempre ao teu lado, enquanto você segue sua vida. Seria meu último suspiro no momento em que você acordasse.
Lembro-me dos nossos primeiros sorrisos. Caiam borboletas do céu e você me convidou a fazer parte da sua vida. Lembra?
Agora preciso ir menino, mas contigo deixo uma canção de ninar.
E hoje eu descobri
O quanto eu te quero
Ursinho de dormir
Vem que eu te espero assim
Eu hei de conquistar
Teu coração durão demais
Que não quis pagar pra ver
Nem dá o braço a torcer.
O quanto eu te quero
Ursinho de dormir
Vem que eu te espero assim
Eu hei de conquistar
Teu coração durão demais
Que não quis pagar pra ver
Nem dá o braço a torcer.
[Armandinho]
