Um dia eu já não escutava o som da sua voz ou jamais o vi novamente. Não me comovia mais com aquele olhar triste, vazio, recheado de uma esperança que já não existia. As lembranças que tinha dele eram de mágoa e de dor. Poderia ele viver para sempre? Todos viviam por ele e assim ele tinha todos em suas mãos: o sincero, o nobre e até mesmo o rico. Por ele todos viviam, buscavam, caminhavam até o mais longínquo destino. Esperavam-no num tempo que não passava, por dias, por anos... Sua morte foi como um golpe baixo na auto-estima de todos. E ele morrera ali mesmo nos meus braços. Eu que desejava tê-lo dito tanta coisa, porém calei-me, desde o primeiro momento de seu sofrimento. Palavras já não faziam nenhum sentido! As lágrimas morriam sobre a minha face ao mesmo tempo em que me perguntava se este seria o auge do meu sofrimento, ver a quem eu tanto tinha carinho partir e conviver apenas com as doces lembranças daquela época em que tudo era apenas o princípio. Os amigos chegaram e lamentaram o sucedido. Cobriram o “corpo” com os mais lindos lírios colhidos no jardim de minha cidade e vestiram-no com a roupa mais antiga retirada do baú. Sim, aquela que ele vestia no nosso primeiro encontro o qual ainda guardo as fotos. Todos me diziam apenas que aquela era a vontade de Deus, mas recusei-me a ir a seu funeral. Não mais iria chorar e nem desejava ser abraçada e amparada naquele momento de dor. Palavras de consolo não me arrancariam do peito a dor da despedida, o adeus, enquanto que meu último desejo era apenas que ele estivesse no céu com os mais belos anjos. Raras vezes fui visitá-lo desde o último dia, pois sempre que ia e me olhava no espelho via lástima, mágoa, silêncio presos em minha face. Tormentos que jamais me deixaram e, mas quando vou sempre levo flores que transmitem a saudade que ainda rasga meu peito, clama meu coração. A morte deveria ser um ponto final, então porque vive em estado de puro gelo? Perguntas invadem a minha alma, indagando sentimentos sem sentido. Será que ele morreu ou será que eu o matei? A dor suaviza com o tempo? Ele ainda está dentro de mim? Escondido? Guardado? Lembro-me bem daquele dia. Sinto muito, ouvi de um “especialista”, ele, o amor, morreu... Aquele que viveu ao teu lado e não te reconheceu. Eu só conseguia pensar que era um vírus no coração. Daqueles que faz chorar, doer e deixa aquela enorme e feia cicatriz para sempre tatuada na alma. O mundo não pode terminar ali, nas mãos daquele amor que já morreu. Mas o que mais dói não é ele ter partido, o que me incomoda é ele ter ido e ter deixado sua ausência como companhia. E agora todas as sombras que vejo são só saudade. Saudade que já nem me faz falta. Só uso a palavra saudade porque soa bonito. A noite estava cinza e formava uma chuva visível apenas ao meu coração. Lembro-me que aquele dia eu dormi, mas antes bebi o restinho de vinho no copo, brindei com a solidão e fechei os olhos, com o porta-retrato sem a foto do amor na cabeceira da minha cama.
sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010
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5 comentários:
A quem queremos enganar? À nós mesmos? A amor nunca morre!! Podemos até enterrá-lo bem além de sete palmos! Mas ele fica lá, quieto, em estado de hibernação! E um belo dia, normalmente sem esperarmos, ele ressurge, pleno, vivo, com novas esperanças de voltar a florescer e frutificar em nossos corações!
Abração do Land
Amor é estado de espírito e independe de outro alguém específico. A gente ama todo dia, toda hora o tempo todo sem nem perceber. Em dias de "sorte", encontramos pessoas dispostas a trocar e trocamos, seja por um dia ou quantos mais durar.
Beijão!!!
Luciene
Não existe coração tão duro que não saiba como é amar. Somos seres baseados no amor. Acredito que se pode amar intensamente várias vezes na vida. Enquanto há amor, tudo vale a pena. Quando não há, falta todo o resto, independente dele ter morrido ou de tê-o matado. Muito lindo seu texto. Parabéns!!
Beijos
"É tão curto o amor, tão longo o esquecimento"
Pablo Neruda
"Riscou noites a fio páginas de amor e de dor.
Do vinho tirou sua história, das lembranças, sua poesia.
Do amor, sua dor. Do seu fim, o amor, a vida."
Samuel Vigiano
Como disse o mestre Neruda, o esquecimento é tortuoso, a melhor forma de se fazer é imortalizar o amor em poesia. E só quem consegue o fazer são os verdadeiros poetas. Você o fez.
Parabéns pelo belíssimo texto. Amei.
Beijos
E Ponto Final
,Nem tudo que conto começa com "era uma vez...", mas tudo tem início, meio e fim: As plantas, as músicas, os pássaros, os programas de TV, as vacas, os livros, as galinhas, as tias, os burros, os amores, os macacos, os poemas, as piranhas, as novelas, as famílias. Todos começam, vivem, crescem, dão frutos- têm crias, crises, sorrisos e choros - ou não e depois terminam. Porque tudo tem fim e aqui, na minha vida todos têm FINAL feliz.
Qual fim você vai dar? Você sabe quando será o fim disto aí que está vivendo? Ou já acabou e você nem percebeu?
Aceite! Tudo acaba é Zé Finin e ponto final.
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