quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Lembranças


Já faz muitos meses, anos até. Não sei, não me lembro mais. Mas enfim, hoje criei coragem e abri a velha gaveta. É aquela que fica no fundo, bem no fundo do guarda-roupas, que já está emperrada, por tão pouco uso que ela tem. Segurei a respiração de forma a não ingerir tanto pó que estava ali. Minha alergia agradece. Mas na verdade segurei a respiração porque havia tanto ali do qual sempre fugi, tantas lembranças guardadas por tanto tempo, lembranças essas que me surpreenderam. Busquei na memória a última vez em que abri esta gaveta pra relembrar o passado e não descobri. Mas o que importa? Alguém gosta de usar perfume vencido? Alguém gosta de comer comida estragada? É assim que lido com as lembranças. Só me arrependo de não ter datado, grifado, colocado todas em ordem alfabética, pra quando der saudade me lembrar de quem, onde, como e porque. Remexi um pouco mais e muitas lembranças estavam amarelas, desgastadas com o tempo. Essas foram tão fortes que talvez jamais se apaguem. Sacodi a cabeça, tentando resgatar as memórias, mas foi em vão. Um espaço branco, imemorável, vazio estava em mim. Porque guardei tantas lembranças na gaveta? Qual o objetivo de tirá-las de mim? Muitas foram tão boas... Não havia sentido deixá-las ao lado de lembranças tão vazias, que traziam tanto rancor... Mais uma remexida na gaveta.       E lá estava. Uma praia, pirão de peixe, carinho e amor. Bala de morango. Danoninho, brigadeiro, pizza inundada com catchup. Pagode, amigos. Bolos de chocolate, sorvetes de chocolate. Esconde-esconde, vôlei e futebol. Copas do mundo. Fugas da escola, amizades eternas. Viagens, frio, colo de mãe, colo de pai, irmãs que são melhores amigas. Um papagaio especial.  Ótimo! Uma gota de lágrima marcou ainda mais as páginas amarelas de um diário velho. Mais uma lembrança na gaveta: o dia de hoje, a marca de uma lágrima derramada de saudades. As lágrimas foram contidas, mas a esperança é infinita em dias melhores que virão. Eles virão, não virão? Num turbilhão de pensamentos achei! Achei a felicidade perdida. Surpreendi-me ao ver sua data. Faz tão pouco tempo... Tempo esse que somam vários anos. Felicidade inocente, felicidade sem medo, felicidade cheinha de esperança. E pensando concluí o que já sabia: das coisas que se foram ainda resta o sabor de saber que agora, de verdade, tudo será mais bonito. Deve ser só o medo que ainda guardo na gaveta. Olhei para o outro canto e achei a força, toda quebrada em pedacinhos... Ainda vai levar um tempo pra juntá-los. Mas a vida é assim, um vinho tinto suave guardado, esperando o momento certo para ser saboreado.

1 comentários:

Leila Galvão disse...

Quero mais.

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